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O APRENDIZADO DOS GATOS

Por Joice Peruzzi, Médica Veterinária Homeopata e especializada em Comportamento Animal. Pet Estar: Comportamento, Exercícios e Bem Estar, http://www.petestar.com.br

Matéria publicada na Revista Pulo do Gato, Caderno Especial Comportamento, Edição 73, Janeiro / Fevereiro 2013 (disponível apenas em versão impressa). 

“A MANIPULAÇÃO PRECOCE DO FILHOTE, UMA BOA SOCIALIZAÇÃO PRIMÁRIA E O DESMAME NO TEMPO CORRETO INFLUENCIAM O APRENDIZADO DELE QUANDO ADULTO”

O aprendizado dos gatos é um tema que traz dúvidas, comparações e mistificações. Por ser considerado um animal independente, muitos o julgam como interesseiro e afirmam que ele é incapaz de obedecer. Claro, se comparado ao cão, o gato parece muito menos obediente, mas devemos entender que são espécies completamente diferentes e comparações comportamentais nem sempre podem ser traçadas.

veterinario gatos caxias - hallmarks of felinity

TIPOS DE APRENDIZADO DOS FELINOS

# Observação: é o tipo de aprendizado mais característico dos felinos;

# Tentativa e erro;

# Por evento único (experiência);

# Por condicionamento.

Não devemos esquecer também da questão instintiva, que é inata e transcende o aprendizado.

APRENDIZADO QUANDO FILHOTES

Para compreendermos melhor o tema, precisamos entender o desenvolvimento desde o nascimento do gato. Podemos afirmar que em torno dos dez dias de vida os gatinhos têm sua primeira grande lição, aprendendo a localizar o mamilo preferido da gata para mamar, por tentativa e erro.

Filhotes também são capazes de aprender a evitar situações nocivas através da experiência, esquivando-se de locais onde algo ruim aconteceu.

Mas a maior lição é proveniente da observação da mãe. É a partir daí que os filhotes aprendem a usar a caixa de areia, a caçar e a comer. O aprendizado da caça é reforçado pela gata, que na fase de desmame começa a trazer presas atordoadas para que seus filhotes desenvolvam suas habilidades e aprendam a matá-las.

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APRENDIZADO NA FASE ADULTA

Na fase adulta, como todas as espécies, o gato continua a aprender, por isso, é possível usar algumas técnicas para modificar comportamentos inadequados através do condicionamento.

É importante ressaltar que as técnicas não são utilizadas isoladamente, mas sim como parte de uma intervenção, que pode também incluir enriquecimento ambiental, mudanças no manejo e medicações.

Dessa forma, podemos usar estímulos negativos para corrigir alguns comportamentos, utilizando uma substância aversiva, como o plástico filme em um sofá para evitar arranhaduras ou um spray de água para evitar brincadeiras agressivas. Recompensas também devem ser feitas, como carinho, comida ou brincadeira quando o gato estiver se comportando de maneira adequada.

Além disso, os gatos adultos mantém seu aprendizado por observação. Isso explica porque eles abrem as portas e os armários, imitando seus donos. Por tentativa e erro aprendem a usar brinquedos inteligentes ou interativos, recheados com petiscos, nos seus mais variados formatos e formas de liberação de comida.

É importante ressaltar que, individualmente, os gatos mostram características e motivações diferentes para o aprendizado e têm seu temperamento particular. Sabe-se que a manipulação precoce do filhote, uma boa socialização primária e o desmame no tempo correto (depois dos 45 dias) influenciam o aprendizado dele quando adulto.

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CONDICIONAMENTO

Talvez a grande dúvida em relação ao aprendizado dos gatos surja quando comparamos a sua capacidade de aprender truques com a dos cães. Devemos entender que o tipo de interação dos felinos com seus tutores é diferente, pois se baseia em uma relação que equilibra períodos de contato estreito com afastamento, contra a ligação constante e intensa entre um cão e seu dono. Portanto, por estar sempre próximo e pronto para servir ao seu dono, o cão acaba tendo maiores chances de aprender truques.

O tipo de motivação usada para ensinar truques é outra barreira para os gatos, que perdem facilmente  o interesse na recompensa (comida, brinquedo ou carinho) quando lhes é proposto um desafio. No entanto, isso pode ser administrado com truques fáceis no início, como pedir para um gato se posicionar próximo a algum lugar movendo a comida e associando isso a um comando. Aumente a dificuldade aos poucos, pedindo para o bichano pular para uma superfície mais alta ou mais baixa ou sentar.

É importante respeitar o tempo de duração de cada sessão, que deve ser curto, para que o gato não perca o interesse. O dono deve ter muita paciência e comprometimento, sempre respeitando as particularidades da espécie felina.

Com um mecanismo semelhante ao de recompensa com dificuldade gradual, podemos ensinar um gato a usar o vaso sanitário, a passar por uma portinhola própria para a espécie e a andar com coleira e guia na rua.

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Com esses dados e observação dos nossos bichanos, percebemos que duvidar da inteligência e do aprendizado dos felinos é um erro tão grande quanto compará-los aos cães. A maioria dos tutores de gatos não faz a menor questão que seu gato saiba truques, mas é importante entender o mecanismo de condicionamento para corrigir alguns comportamentos inadequados e para tornar a relação com o gatinho ainda mais agradável!

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INTRODUZINDO UM NOVO GATO EM UMA CASA COM GATOS

POR JOICE PERUZZI, MÉDICA VETERINÁRIA ESPECIALIZADA EM COMPORTAMENTO DE CÃES E GATOS E HOMEOPATIA. http://www.comportapet.com.br 

Antes de pensar em introduzir um novo gato em casa, você deve analisar seu ambiente e a capacidade de ter mais um animal. Mais um gato significa mais gastos, mais território a ser dividido e mais atenção a ser dividida.

Se você já tem um gato com problemas de comportamento (agressividade, marcação com urina ou arranhadura, medo, etc), a introdução de um novo membro pode ser extremamente prejudicial ao caso. Portanto, comece o tratamento do seu gato antes de introduzir um novo.

Mas se tudo já foi analisado e a opção foi feita, há formas de garantir uma boa convivência entre o novo residente e os antigos.

Quando estamos tratando de gatos bem socializados, a introdução é bem mais fácil. O novo gato deve ser colocado em um cômodo, de preferência onde nenhum gato fique muito tempo, com caixa de areia, água, brinquedos e comida e deve permanecer nesse
local, fechado, por 5 a 7 dias. Se nenhum gato demonstra (ou quando deixarem de demostrar) atitudes agressivas (vocalizações, marcações com urina ou arranhadura e vigia excessiva do cômodo) ou medo, comece a liberar o novo morador aos poucos, deixando-o dentro de uma caixa de transporte no meio de um cômodo onde todos os gatos permanecem. Nesse momento, todos os gatos podem receber seu petisco favorito, facilitando as relações. Depois, o gato é preso em seu cômodo novamente.

Esse processo deve ser repetido por 5 a 7 dias e então o novo gato já pode ser liberado para a casa toda, desde que todos os gatos respondam bem a essa aproximação.

É importante que nos primeiros dias de liberdade total o dono observe bem a reação dos seus gatos, para intervir quando necessário. Sempre que os gatos estiverem no mesmo cômodo, interagindo bem, devem ser elogiados e acariciados.

A quantidade de caixas de areia deve ser aumentada (pelo menos uma a mais). Nos primeiros dias, podem ser mantidos os pratos de comida e caixa de areia no cômodo onde ele ficava preso.

Quando estamos tratando de gatos menos sociáveis, o processo deve ser mais lento, dependendo das respostas de cada um. Sempre busque ajuda especializada quando a adaptação não ocorrer da forma esperada, para garantir uma boa relação entre os gatos no futuro.

COMPORTAMENTO FELINO

Do site www.comportapet.com.br, por Joice Peruzzi.

“O COMPORTAPET é um site sobre comportamento canino e felino. O objetivo desse site é que você entenda melhor o que seu peludo faz e porque ele se comporta dessa maneira. Se tiver dúvidas e sugestões de artigos, entre em contato conosco!”

 ORIGEM DOS GATOS

               A origem do gato é egípcia e a sua domesticação provavelmente se deu há 9500 anos. No Egito antigo, eram criados para controle de roedores e posteriormente foram associados à religião. A fascinação pelos bichanos era forte nos egípcios, que acreditavam que o gato podia ver a alma. A partir daí, se tornou um animal de estimação.

               Na sua história, os gatos já foram perseguidos por algumas religiões e venerados por outras. Atualmente, o gato é considerado o “animal de estimação do futuro”, já que ultrapassa o número de cães nos lares de vários países.

DOMESTICAÇÃO

               Apesar de conviver com humanos há milhares de anos, os gatos ainda tem capacidade de se tornar auto-suficientes, ou seja, viver sem a influência direta dos humanos.

               Dessa forma, temos quatro categorias de gatos, de acordo com seu estilo de vida:

– Gato de vida selvagem: feroz, independente, totalmente ignorado pelas pessoas. Não são muito vistos, talvez pela distância que procuram manter de seres humanos.

– Gato errante e sem proprietário: não é sociável com as pessoas, só depende do humano pela comida. Geralmente vivem em bandos e são alimentados pela vizinhança, mas não permitem maiores aproximações de humanos.

– Gato domesticado: errante, sem proprietário, mas sociável com humanos e sua alimentação depende de nós. São os gatos abandonados, que passam a viver na rua.

– Gato de estimação domesticado: vive com o proprietário em casa, tendo ou não acesso à rua.

DESENVOLVIMENTO

               Os gatos passam pelos mesmos estágios de desenvolvimento que os cães, porém os períodos são mais curtos e mais difíceis de se definir, já que são variáveis entre os indivíduos.
 
Período neonatal: vai até a segunda semana de vida e é um período marcado por amamentação e sono. O gatinho depende totalmente da mãe.
 

 Período transicional: vai da segunda a quarta semanas de vida. O gatinho começa a se locomover e desenvolve seus sentidos.

               Gatos separados da mãe nas primeiras semanas de vida tem mais medo de outros gatos e de pessoas e demoram mais para aprender. A manipulação precoce por pessoas é benéfica para os gatinhos, garantindo uma melhor relação tanto com pessoas quanto com outros animais e com fatores ambientais.

 Período de socialização: inicia entre a terceira e quarta semanas de vida e se estende até sete a nove semanas. O aprendizado nessa idade se dá basicamente pela visualização de objetos. A mãe começa a ensiná-los a caçar, podendo trazer presas semi-mortas para o filhote aprender.

As brincadeiras são muito importantes nessa época, principalmente com os irmãos de ninhada, pois assim os gatinhos aprendem a medir a força de suas mordidas e arranhões.

 Período juvenil/ Idade adulta: o período juvenil se estende até a idade adulta, que é a idade em que o gato atinge a maturidade sexual. Essa idade é variável entre os indivíduos, entre 6 e 12 meses. A maturidade social, no entanto, só é atingida a partir dos 2 anos de idade.

COMPORTAMENTO SOCIAL

               O gato criado sem intervenção humana é um animal que permanece a maior parte de sua vida sozinho e não forma vínculo social duradouro. Alguns animais podem co-habitar o mesmo território, mas evitam interações, passando a maior parte do tempo sozinhos. Até mesmo os gatos caseiros tendem a dividir a casa em áreas individuais.

 

               Todo o comportamento do gato se baseia no território. A maioria das complicações comportamentais surge quando alguma mudança no território acontece. Às vezes a mudança é muito sutil, como um móvel trocado de lugar, mas basta para que o gato mude seu comportamento.

               Os machos são mais ligados ao território, formam territórios maiores, com limites rígidos e permanentes. Algumas vezes, fêmeas são permitidas em seu território, mas não sempre.

COMUNICAÇÃO 

                Os gatos utilizam a comunicação verbal, postural e por marcação.

Comunicação verbal: inclui diversos sons, como silvos, murmúrios, gritos, ronronar, choro de acasalamento, etc. Existem estudos sobre os padrões verbais de gatos, indicando  o que cada um significa.

               Assim como os cães, os gatos estão constantemente observando a nossa expressão corporal e o que ela indica. Apesar de não entenderem o que dizemos, são capazes de perceber o estado emocional das pessoas ao seu redor. Eles também fazem uso da sua postura como forma de comunicação, porém em menor escala que os animais sociais (como o cão).

Marcação de território: é a forma mais permanente de comunicação, já que marcações olfativas e visuais permanecem no local mesmo após a partida do animal. O gato faz marcação através da “esfregação” das bochechas, pois nessa região existe a produção de feromônios. Também faz marcação por arranhadura e por excrementos (urina e fezes).

               Temos que entender essa comunicação antes de tentarmos mudar um comportamento de arranhar móveis, por exemplo.

                Deve-se tomar o cuidado de não humanizar e nem comparar o comportamento de gatos com outros animais. Gatos e cães pertencem a espécies e, até mais, a famílias diferentes, por isso nunca devem ser comparados e nem tratados da mesma forma.